Fotografando pessoas

 

Fotografando pessoas

Publicado originalmente no blog da Companhia das Letras.
 

A ideia que tenho de fotógrafo não é das melhores. Penso em um sujeito desconhecido que chega, com uma câmera na mão, pedindo para o fotografado repetir gestos e expressões, colocando-o muitas vezes em situações ridículas, repetindo tudo, à exaustão, até o sujeito do outro lado da lente ficar cansado e, talvez, se sentindo a maior fraude do mundo.

É o que imagino que as pessoas esperam de mim quando vou fotografá-las. Quando o retrato é de escritores, esse contrangimento antecipado piora um pouco. São pessoas inteligentes, com senso estético apurado,  acostumados e muitas vezes cansados de lidar com a imprensa.

Lembro da última vez que José Saramago veio ao Brasil. A Companhia me contratou para fotografá-lo. Haveria uma rápida e reservada sessão. Apenas eu e outro fotógrafo de uma rede de tevê em que Saramago dava uma entrevista.

Meu colega foi mais rápido e avisou que seria o primeiro. Após os primeiros cliques, ele pediu para um Saramago que acabara de escapar da morte: “Dê um sorriso!”. Recebeu como resposta algo mais ou menos como “Não acho que meu sorriso em fotos transmita algo de sincero”.

Quando chegou minha vez, não troquei nenhuma palavra. Fiz poucos cliques. Ele estava cansado, e rapidamente dei por encerrada a sessão. A foto não ficou tão boa como eu imaginava. Fiquei um pouco decepcionado, me questionando se não deveria ter insistido um pouco mais.

O desafio de fotografar qualquer pessoa é fazê-lo da forma mais rápida possível, sem incomodar muito, e ao mesmo tempo dar significado a um momento com grandes chances de passar despercebido.

O resultado dessa comunicação, que aparentemente acontece de forma precária em contraponto com as infinitas possibilidades da fotografia, é o que tanto me fascina e surpreende durante as sessões.

Uma lembrança marcante é de quando, também para a Companhia, fui fotografar o escritor e historiador da USP Boris Fausto. Boris passava por um momento dificílimo. Acabara de perder sua esposa. Porém, me recebeu de forma excelente. Sua aparência era de uma força enorme.

Mais tarde, me disse que estava difícil disfarçar sua angústia. As fotos foram feitas e tudo ocorreu bem. Pedi algumas variações, porém sem saber na hora o resultado daquilo. Quando fui editar o material, a foto abaixo me chamou a atenção em especial.

Não conseguia tirar o olho dela, e na hora não sabia muito por quê. A sensação era de que Boris tinha me dado uma espécie de lembrete de esperança ao mesmo tempo em que vivia um difícil sentimento de perda.