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Com licença, seu Antonio

 

Com licença, seu Antônio

Publicado originalmente no blog da Companhia das Letras.

 

Apesar de muitos, os encontros na vida de um fotógrafo são sempre breves. É trabalho, todo mundo tem coisa para fazer, ninguém quer atrapalhar ninguém. Mesmo assim, breves encontros podem reverberar por um longo tempo.

Um desses breves encontros que me marcou este ano foi na casa de Antonio Candido. Não estava incumbido de fotografá-lo e sim de fazer reproduções de alguns de seus livros, em especial de uma dedicatória de Sérgio Buarque de Holanda para a reedição do livro Monções.

Claro que me interessa o trabalho, respondi para a Companhia, e me animei em poder conhecer as cadeiras, mesa, poltrona e sofá da casa de Antonio Candido.

Sabia que ele estava com 96 anos. Mas não sabia como ele estava. Nem se iria vê-lo. Pensei que sua filha, Laura, fosse me receber. Subi e quem abriu a porta era o próprio Antonio Candido, com um porte incrível, olhos vibrantes e silenciosos. “Com licença, seu Antonio.”

“Olha aqui, é todo seu”, e me entregou o livro de Sérgio Buarque. Ficou impressionado com os equipamentos que começaram a ser montados. “Isso tudo é pra fotografar um livro?” Avisei que ele poderia ficar à vontade, mas preferiu acompanhar tudo sentado no sofá. E levantando do sofá, atendendo o telefone, coordenando reformas e afazeres da casa.

Admirei como ele sentava e se levantava tão bem, numa semana em que eu estava com dores nas costas e mal conseguia andar. Estavam ali as cadeiras, mesa, poltrona, sofá e estantes e o Antonio Candido. Fiquei apenas observando enquanto falávamos um pouco.

As breves conversas se alongaram com a reprodução da dedicatória feita. Foi uma pequena aula, totalmente informal, sobre os últimos 100 anos do país. Um olhar positivo que soaria estranho nessas épocas de tantos extremos. Senti que aquilo tudo deveria estar sendo gravado e muito bem guardado.

A conversa se alongou, eu precisava ir embora. Mas queria fazer um retrato dele. Perguntei com muito cuidado, dizendo que seria uma honra. “Tudo bem, mas apenas uma foto”. Negociei três e ele aceitou.

Posicionei ele e não disse sequer uma palavra. Estava tudo ali. Um olhar de uma elegância incrível. Fiquei com uma sensação de bem estar, lucidez e saúde que não vinha de exercícios nem dietas especiais, mas sim da companhia de bons livros e silêncio. Ser capaz de envelhecer desta forma me pareceu incrível.

Renato Parada